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Resistir é torcer: a presença das mulheres no futebol
Da exclusão histórica à organização coletiva, a vivência feminina no esporte mais popular do país é apresentada como eixo de transformação cultural e enfrentamento ao machismo. Leia
O futebol, como um dos maiores marcadores da identidade cultural brasileira, tem sido historicamente colocado como um território masculino. Essa marcação atravessa práticas, discursos e estigmas que moldam quem é autorizado a ocupar as arquibancadas e sob quais condições. No entanto, as mulheres nunca estiveram ausentes desses espaços; estavam, na verdade, controladas, reguladas, silenciadas e invisibilizadas.
Nos últimos anos, especialmente a partir da expansão das torcidas organizadas e do surgimento de comandos femininos, mulheres têm produzido novas formas de se fazerem presentes e de torcer, desafiando a hegemonia masculina, denunciando violências e criando redes de proteção e pertencimento.
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A construção da torcedora
A presença feminina no futebol sempre foi pautada por mecanismos que buscavam controlar sua participação e limitar sua legitimidade. A pesquisadora Leda Maria da Costa, em sua análise sobre representações e autorrepresentações de torcedoras destaca o papel central do termo “maria-chuteira” nesse processo.
Esse estereótipo funciona como um dispositivo moral que tenta reduzir a torcedora a motivos afetivos ou oportunistas. Com isso, o conhecimento, o interesse e a paixão feminina pelo futebol são desligitimados. É um rótulo que funciona para vigiar e limitar a mulher, sustentando a crença popular de que o estádio pertence aos homens e que qualquer mulher que o frequente precisa ser questionada.
Mais do que um insulto, o termo “maria-chuteira” funciona como uma ferramenta de exclusão que impede que mulheres sejam reconhecidas como parte da cultura futebolística. Ele apoia a ideia de que a presença feminina é secundária. Esse tipo de representação contribuiu para a formação de barreiras sociais e morais que ainda hoje moldam a experiência de torcedoras brasileiras.
História da presença feminina nos estádios
Nos anos 1920, quando o futebol ainda era tido como uma prática elitista e algo para a burguesia, a ida das mulheres aos estádios era socialmente aceita, porém regulada. As normas sociais de gênero ditavam que a mulher poderia frequentar jogos, desde que fosse acompanhada por uma figura masculina. Isso porque acreditava-se que o ambiente masculino e popular poderia, de alguma forma, manchar a reputação feminina.
Com a popularização do futebol e sua incorporação como paixão nacional, o perfil do público começou a mudar. Os estádios passaram a ser ocupados por setores populares e a atmosfera das arquibancadas se tornou sinônimo de virilidade, força física e linguagem agressiva. Assim, se consolidou a ideia de que estádios seriam um território natural dos homens. A masculinização do ambiente fez com que mulheres, que até então eram toleradas, se tornassem cada vez mais deslocadas.
A cultura da violência, os cânticos ofensivos, a grande presença masculina e, principalmente, a erotização da figura feminina contribuíram para reforçar o imaginário de hostilidade das arquibancadas.
A redemocratização do país, o fortalecimento das lutas femininas e mudanças na cultura urbana criaram condições para que as mulheres retornassem aos estádios de forma cada vez mais expressiva. Ainda assim, essa volta não significou uma aceitação plena. O ambiente continuou marcado por agressões verbais, assédio, testes de conhecimento e outras práticas que reforçam sua suposta inadequação.
É nesse período que começam a surgir iniciativas de torcedoras que buscavam frequentar os estádios juntas, criando pequenas redes informais de segurança e companhia. Coletivos como o Tira-Prosa, do Esporte Clube São Bento, são um exemplo: as irmãs Rosa, Maria Helena, Marina, Maria José e Paula entraram pra história ao criarem uma das primeiras organizadas do time. Embora não fosse uma organizada feminina, era considerada por muitos uma torcida de mulher. Práticas como essas foram essenciais para o surgimento de comandos femininos.
A partir dos anos 2000, é notável o movimento crescente de mulheres dentro das torcidas organizadas. Esses grupos emergem como estratégias de proteção, pertencimento e politização da presença feminina.
Ao organizarem seus próprios coletivos, as mulheres transformam sua experiência no estádio em ação política. A ida ao jogo deixa de ser apenas consumo esportivo: passa a ser ato de presença, afirmação e disputa por direitos.
Comandos femininos e torcidas organizadas femininas
Os comandos femininos dentro das torcidas organizadas representam hoje um dos movimentos mais importantes na luta das mulheres pelo direito de ocupar o futebol. Grupos como o ‘Torcedoras Raiz’ do Ceará e o ‘Dinaminas’, ligadas ao Vasco, surgiram justamente da necessidade de criar companhia segura para frequentar os jogos e de formar redes de proteção diante do assédio, da hostilidade e das violências cotidianas.
Os comandos femininos se tornaram lugares onde as mulheres finalmente podem respirar dentro do estádio. Com eles, torcedoras se organizam para chegar juntas ao jogo, dividir o caminho, ocupar o mesmo espaço na arquibancada e não deixar ninguém sozinha diante de situações de assédio ou hostilidade.
Muitas vezes, é uma mensagem enviada antes da partida, uma carona combinada ou até um simples “avisa quando chegar” que transforma o estádio em um espaço menos ameaçador. Esses grupos também criam laços de amizade e confiança: são espaços onde mulheres compartilham histórias, trocam experiências, acolhem umas às outras e constroem um sentimento real de pertencimento, rompendo a sensação de isolamento que sempre marcou a vivência feminina no futebol.
Ao mesmo tempo, esses coletivos se tornam motores de mudança dentro das torcidas organizadas. As mulheres passam a disputar liderança, carregar bandeiras, tocar na bateria, organizar caravanas e participar das decisões internas, reivindicando não só um lugar físico na arquibancada, mas também um lugar simbólico na cultura da torcida.
Nas campanhas contra o machismo, em publicações nas redes e nas próprias práticas do dia a dia, elas produzem novas narrativas sobre o que significa ser torcedora. A presença feminina deixa de ser vista como exceção ou curiosidade e se afirma como força coletiva. Mulheres que se apoiam, se protegem e transformam o futebol a partir de dentro.
A trajetória histórica da presença feminina no futebol brasileiro revela uma disputa constante pelo direito de ocupar as arquibancadas. No início do século XX, as mulheres tinham uma presença controlada, visto que a masculinização do esporte as afastou e produziu estigmas duradouros, como o de “maria-chuteira” e de pessoas que não entendiam de futebol.
Contudo, o retorno das mulheres, especialmente por meio de grupos femininos e coletivos dentro das torcidas organizadas, inaugura uma nova fase: a da resistência coletiva.
Essa organização não apenas fortalece a segurança e o bem-estar das torcedoras, mas também contribui para democratizar a cultura do futebol, ampliando quem pode torcer, como pode torcer e quais vozes têm lugar no espetáculo esportivo.
Os comandos femininos são, portanto, essenciais na construção de um futebol mais plural, inclusivo e representativo.
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XOXO, MDT 💖
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