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As primeiras e últimas vezes em Interlagos
Um relato sobre a experiência de viver o Grande Prémio de São Paulo em 2024.
Cheiro de borracha queimada, barulho estridente de motores, vultos de carros em alta velocidade sob um céu meio ensolarado e chuvoso. Este é o cenário memorável do Autódromo José Carlos Pace durante o Grande Prêmio de São Paulo no primeiro final de semana de novembro de 2024.
Me aventurei no desconhecido da grande capital paulista para realizar um sonho de fã e aspirante a jornalista esportiva: presenciar de perto a emoção de um GP, um evento marcado por muitas primeiras vezes e também por despedidas.
Será a última vez que alguns dos meus pilotos favoritos correrão pelas suas respectivas escuderias, tornando cada volta na pista ainda mais significativa e emocionante. Lewis Hamilton, o heptacampeão mundial, anunciou no início do ano que se despediria da equipe alemã Mercedes-Benz, após 12 anos de uma parceria marcada por 6 mundiais e conquistas históricas.
A partir de 2025, o britânico vai pilotar o lendário carro vermelho do cavallino rampante. Com essa transição, o jovem piloto Carlos Sainz Jr., após quatro temporadas correndo pela Ferrari, também encerra sua trajetória sob uniforme vermelho, realizando o sonho de muitos: pilotar para a escuderia mais tradicional e vitoriosa do automobilismo.
Além disso, a dança dos acentos na Fórmula 1 trouxe outros desfechos emocionantes, incluindo pilotos que não conseguiram fechar contratos para a próxima temporada de 2025. Entre eles, nomes promissores como o argentino Franco Colapinto e veteranos como Valtteri Bottas, que, apesar do talento, podem estar dando suas últimas voltas na categoria e em Interlagos.
Foi nesse cenário que aconteceu a 21ª etapa da temporada de 2024, entre despedidas e novos começos, pela primeira vez presente in loco no Grande Prêmio de Fórmula 1 em São Paulo.
Assim como eu, Carla Zapelini, 21, integrante do Blog Batom na Pista, percorreu mais de 400 km para chegar ao Autódromo de Interlagos e vivenciar de perto a indescritível paixão pelo automobilismo. “Interlagos é um dos lugares que pude chamar de casa mesmo estando lá somente uma vez”, confidenciou Carla, resumindo em poucas palavras a magia única do templo da velocidade.
Este é o início de um relato sobre um fim de semana inesquecível, repleto de velocidade, amizades, adeus, emoção e aquele frio na barriga que só um esporte como a Fórmula 1 consegue provocar.

Foto: Acervo Pessoal
Sexta-feira, 1 de novembro, o dia em que entendi o significado de estar presente no templo da velocidade, ao adentrar na arquibancada do Setor G e admirar a imensidão de Interlagos. Escolher um lugar, decorar as curvas desde o S de Senna a do Sol, observar os vultos dos carros correndo a mais de 300 km/h – meio supernatural que um ser humano seja capaz de fazer isso, mas eu juro que é bem real – tudo isso para assistir ao primeiro e único treino livre do dia.
Pela primeira vez no GP local do Brasil, os fãs de Fórmula 1 tiveram a oportunidade de viver a tão aguardada experiência da Fanzone. O espaço, repleto de atrações com estandes interativos que exibiam o histórico troféu com todos os campeões da F1, simuladores de pit stop e corrida e muito mais, ofereceu uma imersão no universo da categoria.
A baiana Lívia Maria foi minha companhia nesse espaço exclusivo para os fãs, e, como boas ferraristas, o ponto alto da Fanzone, foi o painel exclusivo da equipe italiana no final da tarde de sexta-feira.
“Ver a dupla de pilotos da Ferrari tão de perto foi surreal. Eu queria ter ficado mais perto da grade, mas estava lotado. Ver os pilotos falando português e o Carlos assustado com a gritaria foi indescritível”, comentou Lívia, emocionada ao relembrar da interação com a dupla de pilotos Charles Leclerc e Carlos Sainz.

Foto: Acervo Pessoal
Sábado, 2 de novembro, o cenário em Interlagos amanheceu diferente, um tanto brilhante e esperançoso que morreu assim que saí da estação Autódromo da linha 9 do trem. O tempo começou a formar nuvens escuras sobre a imensidão de 100 mil pessoas, com 4 filas diferentes para cada setor, mas todos com objetivos diferentes.
Uns queriam o melhor lugar da arquibancada ou do setor, outros entraram a tempo da corrida Sprint, primeira atividade de pista da F1 no dia, já eu tinha um objetivo: entrar a tempo na Fanzone para ver Lewis Carl Davidson Hamilton, o maior nome da categoria de perto.
Ao meu lado, a estudante de engenharia mecânica e também integrante do Batom na Pista, Duda Souza, enfrentava com determinação os perrengues da fila quilométrica e a ameaça da chuva iminente. Apesar dos obstáculos, todo esforço valeu a pena. “Ver o Lewis de perto foi a realização de um dos maiores sonhos da minha vida. Poder olhar nos olhos dele e sentir que tudo é possível foi, sem dúvida, a melhor sensação de todo o fim de semana!”, contou Duda.
Assistir ao painel da Mercedes, onde Lewis, ao lado de seu companheiro de equipe, George Russell, dividiu histórias e arrancou sorrisos da plateia com seu carisma único, foi a realização de um sonho. A cada palavra, provava que é mais do que um piloto excepcional, um símbolo de superação e representatividade. “Não há nada melhor do que olhar nos olhos do seu ídolo e dizer que o ama”, diz Duda, resumindo o impacto desse momento especial entre fã e ídolo.

Foto: Acervo Pessoal
Para mim e Duda, aquela experiência não foi apenas um encontro, mas um lembrete de que a Fórmula 1 é feita de pessoas que transformam velocidade em inspiração.
Como um feitiço dos deuses ou do próprio Senna, o rei das corridas na chuva, o céu de Interlagos escureceu repentinamente à tarde, e, em menos de cinco minutos, a maior chuva que eu já presenciei na vida sob a minha cabeça desabou sobre nós.
Ficamos mais de uma hora enfrentando o temporal, na esperança de ver nossos carrinhos na pista, mas infelizmente, as condições climáticas não eram seguras nem para os pilotos, nem para nós naquela altura. Ensopadas nos despedimos do segundo dia de Interlagos com um misto de gratidão e frustração.

Foto: Acervo Pessoal
Domingo, 3 de novembro. Toda corrida é oficialmente denominada de Grande Prêmio, mas aquele foi um domingo atípico na Fórmula 1. Com o adiamento de toda a programação restante de sábado, as atividades, como a classificação, a própria corrida e a homenagem ao tricampeão mundial Ayrton Senna, foram antecipadas para o início da manhã, enquanto São Paulo ainda chorava sob sua tradicional garoa.
No entanto, aquela manhã não era só sobre corridas, e sim sobre presenciar momentos históricos que unem o passado e o presente do automobilismo. O retorno simbólico da lendária McLaren MP4/5B, que Ayrton Senna utilizou na conquista do bicampeonato em 1990, pilotada por ninguém menos que Lewis Hamilton, fã declarado de Senna e heptacampeão mundial.
Quando o ronco do motor clássico ecoou pelo autódromo, foi como se o tempo parasse. O som atravessou as arquibancadas e pareceu atingir cada pessoa presente, criando uma conexão inexplicável entre o público e a história que estava sendo refeita diante de meus olhos.
These scenes at Sao Paulo, truly special 💛
#F1#BrazilGP
— Formula 1 (@F1)
1:31 PM • Nov 3, 2024
Livia Maria, uma das grandes fãs de Senna, descreveu o impacto de testemunhar esse momento único: "Senti como se algo estivesse apertando meu coração. Faltava ar, e uma vontade imensa de chorar tomou conta de mim, mas eu ainda estava segurando as lágrimas". A cada movimento, a cada curva, o carro parecia trazer Senna de volta à vida, enquanto aquele som nostálgico de sua potência ecoava por Interlagos.
“Quando Hamilton posicionou o carro e deu a largada, parecia que tudo ao meu redor havia congelado. Só conseguia ver o carro. E, quando começou a tocar a música da vitória, eu desabei. As lágrimas vieram, e senti as gotas da chuva tocando minha pele, enquanto meu corpo inteiro se arrepiava. Diferente do que parecia pela televisão, o autódromo ficou em silêncio por um bom tempo. Todos estavam extasiados com aquele momento, foi espetacular”.
As palavras de Livia capturam a essência do que foi viver aquele instante. A homenagem não era apenas um tributo aos 30 anos sem Ayrton Senna, mas também uma celebração de tudo o que ele representou para o esporte e para os fãs brasileiros de automobilismo.
O silêncio, o arrepio coletivo, e a explosão de emoções ao ver Hamilton com a bandeira brasileira em mãos reverenciando o antigo carro e capacete de Senna formou uma cena inesquecível na memória de quem estava presente no autódromo.

Foto: F1
Posso não ter visto Ayrton Senna correndo em vida com aquela McLaren, mas vi Lewis Hamilton ao volante dela, e isso, por si só, é o suficiente para marcar a minha história para sempre.
Mas agora, falando de competição, a corrida do Grande Prêmio de São Paulo em si, foi caótica. Às 12h30, horário de Brasília, os carros se posicionaram no grid de largada prontos para dar o pé no acelerador e só tirar após as 71 voltas programadas.
A expectativa era alta, mas, como nem tudo são flores, o caos começou antes mesmo da bandeira verde. Já na volta de apresentação, o número 18 da Aston Martin, Lance Stroll, “strolou” e ficou de fora da corrida. Na largada, Lando Norris, que partia na pole position, não conseguiu segurar a Mercedes de George Russell e perdeu o primeiro lugar.
A partir daí, o caos tomou conta. A corrida se desenrolou com momentos intensos: saídas da pista, bandeiras amarelas, bastante velocidade e emocionantes ultrapassagens nas retas, tudo isso enquanto as gotas incessantes de chuva sobre os retrovisores transformavam a pista em um desafio cada vez maior. O imprevisível atingiu seu auge na volta 33, quando um acidente obrigou a direção de prova a acionar a bandeira vermelha, paralisando tudo.
A corrida foi retomada em paz – dentro dos padrões da Fórmula 1– mas a calmaria durou apenas até a quinta batida da prova, a mais dolorosa aos meus olhos. Na volta 42, Carlos Sainz, um dos meus pilotos favoritos, perde o controle de sua Ferrari e "beija" o muro. Sua batida trouxe outra bandeira amarela e a entrada do safety car, que mudaria o curso daquela imprevisível corrida.
Com a pista em condições intermediárias, as habilidades dos pilotos foram testadas ao limite, exigindo decisões rápidas e precisas. Foi nesse cenário desafiador que Max Verstappen provou o porquê de ser um dos mais jovens campeões da história da Fórmula 1. O pódio, no entanto, foi uma surpresa. Verstappen cruzou a linha quadriculada em primeiro, seguido por uma inesperada dobradinha da equipe Alpine, com Esteban Ocon e Pierre Gasly em 2 e 3 sucessivamente.
A reviravolta em Interlagos deixou sua marca no campeonato de 2024, mudando os rumos da temporada e criando um espetáculo que será lembrado por anos. E por isso, posso afirmar que presenciei uma corrida histórica, com ultrapassagens incríveis, diversos carros escorregando e outros abandonando a prova e mesmo que Max Verstappen não seja meu piloto favorito, vê-lo escalando o pelotão da 17ª à 1ª posição sob uma chuva torrencial foi algo simplesmente espetacular.
(Se você viu a transmissão do pódio no canal oficial da F1 e apareceu uma doida de boné Ferrari cantando tu-tu-du-du Max Verstappen tu-tu-du-du não era eu de jeito nenhum viu!)
Quando a bandeira quadriculada foi balançada, o sentimento de missão cumprida se apossou em mim. Presenciar essa corrida, tão repleta de emoção e história, foi a realização de um sonho para mim e todas as pessoas presentes. Carlinha, com a emoção no olhar, declara: “Foi a melhor experiência que já vivi em toda minha vida, e se pudesse viveria cada detalhe tudo de novo”. Duda complementou com um desejo que ecoa nos corações dos apaixonados pelo esporte: “Desejo que todas as pessoas que amam Fórmula 1 possam um dia viver essa experiência”.
Interlagos não é apenas um autódromo; é um palco onde histórias ganham vida e onde fãs se conectam através de suas paixões por carros velozes. A primeira vez de todas nós – minha, da Carla, da Duda e da Lívia – presentes no GP de São Paulo em 2024 marcou para sempre nossa trajetória. Mas nunca a última.

Foto: Acervo Pessoal
Até o ano que vem, Grande Prêmio de São Paulo e nos vemos em breve no Autódromo de Interlagos.
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