Nós gostamos mesmo de NHL ou só de Off Campus? 🏒

O impacto de Off Campus, Heated Rivalry e do BookTok na construção do fandom feminino do hóquei no gelo. Confira!

O hóquei no gelo está passando por uma transformação cultural, e não é só dentro do rinque. Depois de décadas confinado a uma imagem rígida e tradicional, o esporte vem ganhando novo significado no entretenimento e nas narrativas de romance, abrindo espaço para um público mais engajado e, principalmente, feminino.

Segundo levantamento do IBOPE divulgado em 2025, o interesse das mulheres brasileiras por esportes cresceu 25% entre 2020 e 2025, mais que o dobro do crescimento registrado entre os homens (12%). A Nielsen Sports confirma: o consumo de esportes entre mulheres no Brasil avançou 40% nos últimos cinco anos.

A tendência do "romance de hóquei" ganhou força no TikTok (BookTok), onde leitoras onde leitoras compartilham dicas, recomendações e entusiasmo com os plots dos livros, criando uma nova onda de fãs que consome conteúdo focado nos jogadores como o arquétipo do "namorado ideal". 

Essa explosão passa diretamente pelos livros de romance esportivo que viralizaram, como a série Game Changers, de Rachel Reid, que inspirou a adaptação Heated Rivalry, e a próxima grande aposta do streaming: Off Campus (Amores Improváveis), de Elle Kennedy.

A série Off Campus existe desde 2015, mas seu impacto é atemporal. O primeiro livro, The Deal (publicado no Brasil como "O Acordo” pela editora Paralela), conta a história de Hannah Wells, uma estudante de música, e Garrett Graham, o capitão estrela e estrela do time de hóquei da Briar University vivendo e explorando um acordo de relacionamento falso.

Explicando assim parece mais um romance new adult com um clássico fake dating entre uma jovem comum e um jogador promissor da NCAA (National Collegiate Athletic Association) né? Pois bem, foram esses livros de romance que ensinaram o esporte de um jeito que nenhuma transmissão conseguiu. Quem leu “O Acordo” entendeu o que é um power play, hat-trick, faceoff e até o que classifica ser uma puck bunny

Os livros e as indicações do Booktok viraram uma porta de entrada para este mundo e as mulheres não só entenderam o esporte: elas criaram um mercado inteiro. E esse fenômeno fez com que a NHL percebesse o alto valor dessa audiência e adotasse estratégias mais focadas no público feminino e jovem. 

No período de lançamento da série “Heated Rivalry”, a SeatGeek afirmou que suas vendas semanais de ingressos para hóquei "aumentaram mais de 20% após a exibição dos primeiros episódios da série no final do ano passado", e a receita "disparou mais de 30%"

Já a StubHub revelou que as buscas por ingressos para hóquei aumentaram 75% na plataforma e as compras de novos clientes subiram 5% no mesmo período.

A categoria feminina da Liga Profissional de Hóquei, a PWHL, ultrapassou em abril a marca de um milhão de fãs na temporada regular pela primeira vez em seus três anos de história. 

A liga no último ano estabeleceu novos recordes de audiência e esgotou arenas da NHL, inclusive, o Seattle Torrent bateu o recorde de público em uma partida de hóquei feminino pela primeira vez na historia da PWHL, com mais de 17.000 torcedores.

E nesse contexto de crescimento da audiência feminina é muito similar ao que foi visto na Fórmula 1 entre 2019/2020, impulsionado pela estreia da série “Drive to Survive”, da Netflix. Na época, as espectadoras foram duramente criticadas por telespectadores “veteranos”, sob o argumento de que acompanhavam a categoria por “apenas acharem os pilotos bonitos". 

Assim como na F1, o público feminino do hóquei está provando que o interesse pela estética e pelo jogo não são excludentes; são um meio para uma base de fãs extremamente fiel e lucrativa. 

Apesar dos esforços, como o da campanha "You Can Play" e de outras iniciativas de ativismo social da NHL falham miseravelmente, pois o “clube do bolinha” encontra formas de ofender e invalidar a legitimidade dessas fãs como conhecedoras do esporte.

Relatos recentes em fóruns como o Reddit mencionam fãs indignadas com comentários de que "mulheres só assistem aos jogos porque acham os jogadores atraentes” ou “porque querem namorar com eles”. 

Em uma reportagem do The Athletic, edição esportiva do New York Times, o resultado de uma pesquisa feita sobre as transmissões esportivas da categoria apresentou o seguinte relato: 

Esta semana mesmo ouvi um comentarista esportivo fazer uma piada dizendo que as mulheres só assistem aos jogos da NHL se acharem os jogadores atraentes. É puro sexismo, que passa despercebido porque o mundo dos esportes é incrivelmente branco e masculino. Notícia urgente: as mulheres representam um grupo demográfico crescente, não só assistindo hóquei, mas também frequentando os jogos e comprando produtos oficiais! Uma maneira infalível de combater a misoginia nas transmissões esportivas é CONTRATAR MAIS MULHERES!"

Mas quando esse ataque preconceituoso também vem dos próprios jogadores? Matthew, do Florida Panthers, e seu irmão, o capitão do Ottawa Senators, Brady Tkachuk, durante um episódio do podcast Wingmen em dezembro, eles geraram uma polêmica ao comentarem especificamente que "não há nada pior do que garotas chamarem um jogador pelo apelido de vestiário", o que foi recebido negativamente pelo público feminino. 

Esse cenário somou-se ao recente episódio nas Olimpíadas de Inverno de 2026, onde comentários misóginos envolvendo o presidente dos EUA e a equipe masculina acabaram ofuscando os grandes feitos da equipe feminina de hóquei.

Fica claro que a NHL e seus pertencentes vivem um conflito de interesses: a liga quer o dinheiro desse novo público, mas parte de sua estrutura ainda se recusa a aceita-lo e respeitá-lo. Essa postura de torcedores conservadores e atletas reflete um medo infundado de que a 'essência' bruta do esporte seja diluída pela cultura pop, quando, na verdade, é essa mesma cultura que está garantindo o futuro do hóquei. 

Esta não é, claro, a primeira vez que algo assim acontece no mundo esportivo. Mas o hóquei chegou ao Brasil pela porta dos fundos: nas páginas de um romance, na tela do TikTok e agora vai invadir o streaming com mais um grande sucesso de adaptação.

Assistam Off Campus na Prime Video, sejam fãs de Garrett Graham e não deixem de acompanhar os playoffs da NHL pela ESPN! 🏒 

E antes que me esqueça: torcedoras, da próxima vez que alguém disser que mulheres não entendem de NHL ou de outro esporte, recomende um livro! 📚

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XOXO, MDT 💖

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